Mamé. É assim, com essas sonoras duas sílabas que todos me conhecem. Meu nome é Maria Amélia Shimabukuro Costa Levorin. Nasci em São Paulo em 1968. Eu como uma boa taurina, do elemento Terra, sou amante de tudo que é artesanal: desde uma comida bem feita a uma obra de arte. 
 
Esse amor nasceu na infância. Meu pai Nonato, cearense, era um nordestino típico na excelência do bom trato e extremamente amoroso, sempre que ia ao Ceará me trazia panelinhas de barro, brinquedos de madeira e bordados feitos à mão. De minha mãe Lúcia, descendente de japoneses, herdei a delicadeza dos orientais e o que é atemporal. O brincar e o lúdico eram fortemente incentivados por eles. Guardo na memória a felicidade que esses momentos de brincadeira me proporcionavam. Na minha casa, rodeada por quatro irmãos, eu era a única menina e lógico, tratada como muito mimo.
       
Na minha lembrança também está vivo o deslumbramento com os enxovais de cambraia de linho bordados, as rendas de Bilro e Renascença vendidos pela minha tia paterna Alba, que os trazia do nordeste para vender em São Paulo. Mesmo criança conseguia perceber a sofisticação que existe na simplicidade.

 

Essa conjunção de fatores despertou em mim a intuição e sensibilidade para a arte em geral e logo comecei a decifrar nos objetos artesanais a questão do único, da exclusividade, da espiritualidade, a emoção de quem faz e do momento do fazer, a relação do oferecer e receber. Essa relação purista de cada ser.

Ainda na infância, freqüentei aulas de artes, artesanato, dança moderna e teatro. Quando adolescente optei por um colegial técnico em desenho industrial e freqüentava cursos livres com profissionais renomados das artes plásticas como Fajardo, Nelson Leirner entre outros. Em 1986, comecei a comercializar objetos de arte, roupas e tecidos antigos da Indonésia.
 
Em 1992 ao me casar, passei uma temporada em Nova Iorque que foi determinante para o aprimoramento do meu olhar estético. Estudei na Parson’s School e na School of Visual Arts. Dois professores foram fundamentais para o desenvolvimento do meu processo perceptivo e intuitivo. 

 

Bonnel Irvine, meu professor da Parson’s era um senhor de mais de 70 anos que trajava gravata borboleta para lecionar, ensinava lindamente ‘Interior Construction’ . Ele mostrou a importância de exercitarmos o nosso olhar para o que realmente chamava a atenção e o atrai. Depois disso, aprendemos a desconstruir esse olhar, e, a partir dessa desconstrução, construir uma nova perspectiva para o que realmente é relevante.
 
Já a Cristina, minha professora de ‘Lighting Design’ da School of Visual Arts, mostrou as infinitas possibilidades que o uso da luz e da cor podem oferecer para ressaltar o que de fato merece ser visto e valorizado, mas principalmente o que é possível criar com esses dois elementos no âmbito das sensações nos ambientes.
            
Ao voltar para o Brasil usufrui amplamente desta visão contemporânea junto ao mercado de arquitetura de interiores, ainda muito fechado por aqui, e exerci por 18 anos esta profissão.
 
Em 1996, depois de um ano de pesquisas, abri em São Paulo uma loja referência até os dias de hoje: Atmosphera Casa. Instalada na Vila Madalena, foi a primeira loja no segmento casa que vendia “Lifestyle” no Brasil. A Atmosphera trouxe ao mercado o resgate do manual, das essências naturais da terra, das raízes do artesanato contemporâneo brasileiro. A loja tinha uma curadoria cuidadosíssima que refletia o meu gosto e olhar. A escolha dos produtos era minuciosa e havia uma incansável busca pelos artesãos que possuíam um trabalho diferenciado e sofisticado e na maioria da vezes desconhecido.

 

Minha intenção não foi criar apenas um ponto de venda e sim um local de transcendência da observação dos objetos. A disposição dos produtos era feita com o rigor da minha aprendizagem de direcionamento do olhar e a intenção era que os clientes circulassem pela loja de forma contemplativa, como numa galeria de arte. Essa forma de expor,  valorizava os objetos como obra de arte. 
 
Fazia parte do complexo “Atmosphera Casa” o “Espaço Atmosphera”. No segundo andar, destinado a exposições. Organizei e comercializei mais de 14 exposições de artistas como Renato Imbroisi, Lúcio Carvalho, Francisca Botelho entre outros.

 

Em 2002, fechei a Atmosphera para dedicar-me exclusivamente a arquitetura de interiores que não foi deixada de lado durante o período que tive a loja. O trabalho continuou até 2008, quando resolvi dar uma parada recolhendo-me em uma fase sabática e curtir meus filhos Luisa e Pedro.
 
Em nenhum momento, porém, perdi a intenção de trabalhar com artes visuais. Fui construindo devagar, mas com muita consciência, uma formação que fazia sentido para as minhas buscas interiores. Aprofundei ainda mais meu conhecimento fazendo vários cursos, desde História da Arte com o mestre Rodrigo Naves à curadoria de exposições com outro mestre generosíssimo Felipe Chaimovich. Esse período durou 5 anos e 13 cursos. Houve um curso fundamental para minha virada nesse novo momento de vida, tanto pessoal como profissional, foi o ‘Conhecimento Da Totalidade’, sobre o olhar de Goethe a respeito da fenomenologia e ministrado por Craig Holdrege e Henrike Holdrege.
 
Em 2014 voltei ao mercado continuando a minha caminhada como curadora de arte, quando realizei a exposição “#140 caracteres” um projeto de curadoria coletiva no MAM, Museu de Arte Moderna. O nosso grupo composto por 20 curadores, vivenciou a mostra de forma intensa. Realizamos um atendimento ao público durante 46 dias. Esse tempo foi de extrema importância para percebemos a relação do público com as obras, os gostos particulares de cada obra, o que cada uma conta, qual é a vida de cada uma a partir do nosso humor e sentimento. 
 
 Há 25 anos sou adepta a medicina chinesa. Sou praticante do Tai Chi há 6 anos. Essa experiência abriu um caminho para me aprofundar no Taoísmo. Hoje essa filosofia  é a grande estrutura e sintetiza o meu trabalho.

 

Percebo como é presente o ciclo da vida, voltei a Arte Popular Brasileira em vários formatos, permitindo me a aventura de produzir um documentário, e curando e preparando  uma exposição sobre a maior festa popular do Brasil: o carnaval do Recife. A cada dia aprendo mais sobre o nosso Brasil e louvo!

 

A fé de Padre Cícero e a calma do Buda Nagô sempre são e estão presentes na minha caminhada!